Domingo, Dezembro 11, 2011

repetirei  a cantiga de rosa
repetirei todos os poetas
repetirei os enguiços, 
os tropeços
os ritos,
as juras
o desalinho
o vício
o tédio

repetirei com gozo

repetirei  toda a cachaça, o desvario
a compaixão
as pujanças
a penúria
e repetirei a falácia
e os martírios inúteis
e as infâmias bem forjadas
e as asneiras sem perdão

repetirei tudo

das odes mais tolas
aos sonetos mais ardis
o ridículo e o cruel
o idílio e o  escárnio
o previsto e o impróprio
o roseiral e cada espinho

eu repetirei  

Sexta-feira, Novembro 25, 2011


Arde aqui dentro de mim uma pouca vontade
Com gosto cortante de caco de vidro, desnutrida
Exposta à fratura
Desequilibra
Desequilíbrio
São tantas saídas dadas ao absurdo
São tantos sabores desnutridos
Veneno pro dia corrosivo
Desequilibra
Desequilíbrio
Certo das contradições,
Desconcertado, desgovernações
Prostituído, descalço no chão estilhaçado
Desequilibra
Desequilíbrio
O passo pro fim foi conquistado
Desdem tão comum em meus ouvidos
Ligado na sobra do pedido
Desequilibra
Desequilíbrio
Mais sobras dadas ao desperdício,
Mais veias tapadas por excesso
Mais contribuindo incentivando
Desequilibra
Desequilibrando
Deformações voluntárias sucessivas
Se todas as cores fossem pretas
Em todas as partes meu planeta
Desequilibra
Desequilíbrio



Eddie

Segunda-feira, Novembro 07, 2011

O Haver


Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
- Perdoai-os! porque eles não têm culpa de ter nascido...

Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe. 

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.

Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza 
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história. 

Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera em face da injustiça e o mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa 
Piedade de si mesmo e de sua força inútil.

Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa 
Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.

Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade 
De aceitá-la tal como é, e essa visão 
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante

E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória
Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.

Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade
Pelo momento a vir, quando, apressada
Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante
Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada...

Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto
Esse eterno levantar-se depois de cada queda
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha
Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo
Infantil de ter pequenas coragens.

Vinícius de Moraes, 15/04/1962
A poesia acima foi extraída do livro "Jardim Noturno - Poemas Inéditos", Companhia das Letras - São Paulo, 1993, pág. 17.

Sábado, Outubro 22, 2011


.

não conheço seu nome ou paradeiro
adivinho seu rastro e cheiro
vou armado de dentes e coragem
vou morder sua carne selvagem
varo a noite sem cochilar, aflito
amanheço imitando o seu grito
me aproximo rondando a sua toca
e ao me ver você me provoca
você canta a sua agonia louca
água me borbulha na boca
minha presa rugindo sua raça
pernas se debatendo e o seu fervor
hoje é o dia da graça,
hoje é o dia da caça e do caçador
eu me espicho no espaço feito um gato
pra pegar você, bicho do mato
saciar a sua avidez mestiça
que ao me ver se encolhe e me atiça
e num mesmo impulso me expulsa e abraça
nossas peles grudando de suor
hoje é o dia da graça,
hoje é o dia da caça e do caçador
de tocaia fico a espreitar a fera
logo dou-lhe o bote certeiro
já conheço seu dorso de gazela
cavalo brabo montado em pelo
dominante, não se desembaraça
ofegante, é dona do seu senhor
hoje é o dia da graça,
hoje é o dia da caça e do caçador
Chico B.

Quinta-feira, Agosto 04, 2011


Ter casa, varanda, trabalho, imposto, faxineira, grama, vizinho, esperança, obrigação, time de futebol, celular, vício, desejo, culpa, vista cansada, televisão, notícia, tédio, loucura, vacilo, raiva, constipação, medo, euforia, paciência, gozo, alguma alegria, ilusão, geladeira, banco, internet, enjoo, dúvida, menstruação, dentista, discernimento, educação, consciência ecológica e o caralho, insônia, poesia, dor, calor, frio, pressa, vontade, fome, sede, idéia, tempo pra paixão, cara de pau, comichão, crise de consciência e, ainda todo o ano, um carnaval, um casório, um natal e um velório. Valei-menossasenhorinhadaspreguiças!

Quarta-feira, Março 23, 2011

breve pausa da pausa


Algumas horas antes, um burburinho bom e agora, um caminho com lua. No som a mesma música de dois dias, Rue de mes Souvenirs. Na rua, eu, que não sou velha, que não sou jovem. E que, nesse lá pelo meio, ando mesmo muito pelo meio. Eu que sempre muito, penso que passo no vazio de uma maré vazante e que, talvez, tenha perdido as asas para andar perto de abismos –  ‘e quem gosta de abismos necessita de asas’ – me fizeram o favor de lembrar.  Mas disperso disso que o caminho é longo.  Sigo me dividindo entre a lua embaçada, a pista do meio e a música de dois dias. Sigo me dividindo. Eu, dispersa como sou. Um azar. Ponho-me atenta a letra da música que desconheço o sentido. Suponho.  Mas a melodia, o arranjo... Conheço o que me agrada. Amanhã busco a tradução e reparto. Esta, por certo, depois de tanto, tornar-se-á por força e merecimento um souvenir desses dias.  Sei que dirijo e escrevo, já quase lá pelo meio do caminho. Meio que dirijo, meio que escrevo, meio que me sinto só, meio que fico na pista do meio, meio que vejo a lua meio embaçada... E dispersa como sou, não divido nada. É noite. E logo não será. Que também a noite vai pelo meio. Ela que é jovem, ela que é velha. E eu, sem escolha, disperso no meio da rua, souvernirs.

Terça-feira, Outubro 05, 2010

diz a dona da casa:

casa em pausa por um tempo que não sei determinar 
coisa de quem não gosta de usar o ponto final
ou
uma larga falta de paciência para decisões

Sábado, Outubro 02, 2010

Sua história tinha esquinas que não podia evitar, mas eram tão largas e exuberantes que mais pareciam praças para distrair esquecimentos.

Terça-feira, Setembro 28, 2010

Saudade, torrente de paixão
Emoção diferente
Que aniquila a vida da gente
Uma dor que eu não sei de onde vem

Helano de Paula e Chocolate

Sábado, Setembro 11, 2010

Ontem me perguntaram: você já tem mestrado?
Penso: Já? Como assim?
: olha, eu tenho gastrite, esofagite, enxaqueca, celular, laptop, casa própria, carro, trabalho, um filho, marido, umas idéias, meia dúzia de contos, um vício, todos os documentos, carteira de vacinação, agora, porra, mestrado eu já não tenho.

Domingo, Agosto 01, 2010

Ai, se ter saudade é ter algum defeito
Eu pelo menos mereço o direito
De ter alguém com quem eu possa me confessar

Dorival Caymmi

Domingo, Julho 18, 2010


primeiro domingo
que casa vazia...
medo é dessa saudade crescer tanto
não caber nesse espaço vazio
medo e alegria
alegria do ir dele
ir onde deseja
de querer
e ir
caminhar pra longe
a experimentar
ver
provar
sem que eu o guarde tão de perto
em prova, também, eu
que a vida não dá tréguas
e no meio disso
um coração de mãe,
- daquelas bem igual a todas,
que sou - na mão.

Quarta-feira, Junho 16, 2010

.
tem gente que tem medo de onda grande
tem gente que tem medo de marola
eu respeito ambas
.
ambas nos engolem
.

Terça-feira, Maio 18, 2010

quando simples

mais que a quietude, o tempo
mais que o tempo, a energia
mais que a energia, o desejo
mais que o desejo, o encanto
mais que o encanto, o impulso
mais que o impulso, o ato
mais que o ato, o gozo
mais que o gozo, a quietude

Quinta-feira, Maio 06, 2010

Volte para o seu lar

Aqui nessa casa ninguém quer a sua boa educação
Nos dias que tem comida, comemos comida com a mão.
E quando a polícia, a doença, à distância ou alguma discussão.
Nos separam de um irmão,
Sentimos que nunca acaba de caber mais dor no coração.
Mas não choramos à toa,
Não choramos à toa.

Aqui nessa tribo ninguém quer a sua catequização.
Falamos a sua língua, mas não entendemos seu sermão.
Nós rimos alto, bebemos e falamos palavrão.
Mas não sorrimos à toa,
Não sorrimos à toa.

Volte para o seu lar,
Volte para lá.

Aqui nesse barco ninguém quer a sua orientação,
Não temos perspectiva, mas o vento nos dá a direção,
A vida que vai a deriva é a nossa condução
Mas não seguimos à toa
Não seguimos à toa

Volte para o seu lar
Volte para lá

Arnaldo Antunes

Sábado, Abril 17, 2010

tantos dias de chuva
meu humor umedecido
umedecendo
.
eu entendo o mofo
na pele

Segunda-feira, Março 22, 2010

...
Enquanto eu desenho flores em minha pele, em frente à minha casa, uma árvore morre.

Sexta-feira, Março 19, 2010

O funcionalismo público e eu – parte l

Fico muito impressionada quando as pessoas me dizem que agora com o SAC – Serviço de Atendimento ao Consumidor, tirar documentos ficou mais fácil, você resolve tudo rapidinho. Comigo não. Nunca é rapidinho. Sempre falta algo ou tem rasura ou simplesmente está errado. Eu nunca entendo bem a razão da complicação, mas ela esta sempre lá e não fui eu que criei.

Meu filho precisa tirar passaporte, como é menor de idade não pode tirar sozinho, precisa de mim e do pai, correto. Para isso nos exigem o RG e só serve o RG. Simples, parece, mas não é. O RG tem que estar em perfeito estado. Bobagem, parece, mas não é. Perfeito estado é uma coisa muito complicada, subjetiva demais, descobri, depende muito do olho de quem vê. A minha carteira de identidade, por exemplo, estava em péssimo estado: não serve, precisa fazer outra, me disseram. Lá vou eu com minha certidão de casamento tirar rapidinho (ai ai) um novo RG, beleza. Uma ova! (e aqui eu faço um parêntese: esta certo que eu já vou pra estas coisa com medo e dizem que isso atrapalha, mas não pode ser apenas o meu pobre medo) A mulher pegou minha certidão de casamento, olhou e lançou:
- Não vai dar.
- Como assim? Por quê?
- Aqui ó, rasurada.
- Mas moça, isso lá é rasura? É porque a senhora nunca trabalhou em escola. Mas já estudou, né? Isso não merece nome de rasura, uma besterinha dessa?
- Não pode. Tem que tirar outra.

Esse ‘tem que tirar outra’ é dito num sem cerimônia, assim como se fosse nada, te olhando no olho, firme, na convicção. Sei lá, tivesse eu do lado de quem diz, ficaria no mínimo constrangida sem saber como dizer, pra onde olhar, onde colocar as mãos. Porque é lógico que todos eles sabem a prova a que nos submetem cada vez que nos condenam a tirar ou renovar um documento.

Ainda pensei se meu passaporte não serviria para provar que sou mãe de meu filho, já que o documento é novo, tem menos de um ano e foi emitido pelo mesmo órgão e coisa e tal. Não senhora, não serve, só o RG -
me disseram com prazer, eu acho, só pode ser prazer, porque lógica não há.


O funcionalismo público e eu – parte ll

Esta semana precisei ir ao Cartório de Registro Civil da Vitória que fica na rua Almirante Marques de Leão, na Barra, e me deparei com algo que deveria ser considerado inverossímil, mas sei que não será. Na frente do prédio uma fila já se enroscava de grande que estava, eram 11h da manhã e o sol escaldava em Salvador. As senhas para atendimento só seriam distribuídas a partir das 11:45. Lá dentro do prédio climatizado estavam os funcionários nos olhando, suponho porque o vidro era fumê. Nós não podíamos entrar no prédio, só depois de posse da senha. Era preciso esperar no sol ou na chuva, fosse o caso. Na fila todos calados, cada um enxugando seu próprio suor, uns cobrindo-se com envelopes, outros com pastas, uns sentados num canteiro ao longo da fila e todos meio desolados, mas ninguém queixava-se. Apenas uma única moça demonstrou indignação. Bradava sozinha sem entender porque sua queixa não ganhava coro, mas mesmo assim tentava. Um funcionário saiu do prédio. Ela o interpelou: Senhor, por que não podemos ao menos esperar lá dentro? É desumano ficar debaixo desse sol a essa hora do dia! A sala lá está vazia! Sabe o que lhe respondeu o sujeito? A culpa é de vocês que estavam vendendo senha! – Eu mesma demorei de entender. Vendendo senha?! Mas claro! Vendendo senha, óbvio! Senhas neste contexto valem ouro! Por que será?

Por que será que cartórios funcionam assim tão mal? Prestam este péssimo serviço, geram comércio de senhas, desrespeitam, humilham, nos sujeitam a suas regras burras e ainda nos esfregam na cara um artigo sei lá qual, nos lembrando que desacato a autoridade é crime, apenas porque não querem ouvir críticas ou reclamação que seja. Quer dizer, você não pode chiar, não pode chamar o gerente, haja o que houver ninguém será demitido e quando acaba, se algo der errado, se algo for rasurado, a culpa ainda será sua, você que entrará na fila, que ficará ao sol e que pagará a taxa da 2ª via. Não é uma beleza?

Sexta-feira, Março 05, 2010

quero uma noite inteira
e mais metade de um dia
não quero relógios
alarmes, campainhas, chamadas
não toquem meus ouvidos
por favor, me dê um silêncio aí
e um pouco de ar fresco
uma queda qualquer de temperatura
e silêncio
pausa
moço, faz favor, dê um mute no mundo
eu preciso dormir.

Quarta-feira, Dezembro 16, 2009

(de quando as mulheres tinham muitos maridos..)

era uma vez uma mulher que tinha cinco maridos
o primeiro era gigante
o segundo era anão
o terceiro um viajante
o quarto ancião
o quinto era o dono do circo e da animação

com o primeiro passeava nas alturas
com o segundo, no asfalto
com o terceiro ia a toda a parte
com o quarto, a tempos idos
mas só com o 5º é que, de fato, ia ao lugar exato

..
(de um texto de Bete Tourinho)
.

Sexta-feira, Novembro 27, 2009

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Naquela casa de três moças, só um vestido era de festa. Só um vestido era bonito. O revezavam. E quando em festas o vestido chegava, o lugarejo se voltava para despi-lo. Quem o trazia no corpo, era sempre uma aposta.
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Os critérios desconhecidos davam sempre uma chance em três, de acerto.
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E as moças eram as mais bonitas da região. Tinham poucas por ali, é mesmo. Mas se tivessem muitas, seriam lindas, ainda, aquelas irmãs. Uma mais velha ano e meio que as outras, gêmeas.
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Elas cresciam e o vestido único permanecia. Tecido para outro não tinham.
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O vestido foi surrando como convém a tudo de muito uso. Mas, a graça lhe aumentava. Agora, moças mais crescidas, mostravam os joelhos e o vestido, além de mais curto, mais justo, acentuava os contornos que os corpos iam botando. Vestido velho ganhava beleza.
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Um dia uma gêmea casou com alguém que de passagem a viu, no vestido. Partiu. Não voltou mais.
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A mais velha também se foi, sem rumo, sem o vestido. Não voltou mais.
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E o vestido ficou. Mofou. E quem ficou não cabia mais no vestido. Mas também não sabia guardá-lo, o vestido de tanto usar. Solidão de moça e vestido. Roupa surrada virou estandarte da esquecida.
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Em dias de festa saíam os dois, ela sem roupa, ele sem corpo.
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Sexta-feira, Novembro 06, 2009

aproveito mais e cada vez mais o tempo que ele me dá
porque vai crescendo muito rápido e indo pras coisas suas
tão bonito está..
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íamos no carro só nós dois, ontem
me disse: acho o dia do aniversário tão ‘subterfugioso’
como assim? por quê?, quis saber já aflita
ele riu apenas e trocamos de assunto
falamos de quando eu tinha 16 anos e mais ou menos como foi minha vida antes dele
mãe, você me teve cedo.. puxado!
mas não demorou ele ficou agoniado de me saber tão menina, um dia.
você ainda é muito jovem pra sua idade
o que tomei por elogio, mas acho que nem era..

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ontem me abraçou mais que nos dias normais
me chamou pra ver com ele uma reportagem sobre os 40 anos de Abbey Road (disco que gosta)
e à noite ficamos ouvindo as músicas de seu ipod


Sexta-feira, Outubro 16, 2009

haicais fraudulentos
de genaro oliveira e fernanda leturiondo

ele:
és um trem de goma e goiabada
eu, um ladrão escondido no trilho
perseguindo teus vagões(carregados de sequilhos)

se tua boca é uma confeitaria
sentir saudade de você, claro
só muito doce seria

ela:
não me atiça
tua língua na minha
dá preguiça

ele:
peixe levado do mar eu fugi
pra ser seu pescado
pra ser seu sushi

nós dois em caldas
entre um bocado de arroz
e uma parede de algas

ela:
vamos comer melancia
a outra fome
depois a gente sacia

ele:
tudo o que eu quiser?
morar em teu ouvido
feito refrão de tom zé

ela:
tudo que eu deixar
você entre minhas coxas
até o dia raiar

ele:
depois de conhecer tuas noites
nunca mais quero prosa com o sol
agora meu corpo só se imagina
conversando em sua boca
cochichando em teus ouvidos
e recitando em tua vagina

nua és ainda mais enfeitada
veste teu corpo rente
uma pele de seda rendada
que te embrulha pra presente

ela:
e o presente seria teu
não fosse tão desligado
teu corpo virava embrulho do meu
mas isso já é passado

ele:
caco, naftalina, poeira?
nosso amor é o inverso disso
é viver a vida inteira!

ela:
meu amor, vida inteira?
nada escapa ao bolor
não reparaste a prateleira?

o sequilho azedou
e da porção de sushi
só sobro o hashi

nem goiabada nem melancia
quando o verso destoa
adeus confeitaria
.



e acabou-se o que era doce.
.

Segunda-feira, Outubro 05, 2009

Descobri que pessoas há muito tempo casadas são consideradas suspeitas. Verdade, hoje em dia ninguém confia em quem permanece casado por anos. Periga até não te darem o emprego!
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Preconceito. Preconceito semelhante ao que havia antigamente com mulheres desquitadas. É tipo esquisito o que permanece casado. Repare que casar está em voga, o problema é permanecer casado.
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Eu casei cedo, muito apaixonada e pensando que se o casamento durasse o tempo da minha paixão já seria muito bom. Minhas paixões não duravam nada, exceto a 1ª, a 2ª e a 3ª, o resto era como um vento que só me escabelava e logo tudo estava no mais absoluto tédio.
.
Crise dos sete anos, eu lembro, falavam disso quando eu era menina (pelo menos em Porto Alegre falavam) e guardei essa idéia, sei lá porquê. Fato é que, casada, eram no mínimo duas crises por ano, desde o 1º. Eu pensava em que raio de casamento eu tinha me metido que nem ao menos teve o respeito de cumprir os primeiros seis anos de paz!
.
Aí, hoje, quando digo que sou casada há tantos anos as pessoas me olham enviesado, como se eu fosse um ET. Qual é o espanto?! Espanto-me eu quando perguntam: Mas com o mesmo marido? Eu minto: É, com o mesmo marido.
.
Pergunta mais besta! Logo pra mim que já fui tantas mulheres!
.
Ai, as pessoas são engraçadas! E doidas!

Quarta-feira, Setembro 30, 2009

Quero dizer isso de novo. Talvez todos os dias.
.

eu não
.
não, não faço parte dessa trupe
nem dessa
nem daquela
e tampouco desta aqui!
não me digam com quem me pareço
não me enfeitem com essas cores
meus adereços são sempre provisórios
eu os decido ao sabor de meus desejos
não me peçam que pose disso e daquilo
eu não vou posar
não digam, você está certa ou você está errada
não me julguem assim tão simples
não me julguem
não conheço essa língua que inventaram
a minha muda por dia
a depender do sal, do açúcar,
do que posso ou não ver
e não me venham com tantos nomes
rejeito nomes
quero ser livre de nomes
não aceito embalagens
nem cercados ou paraísos
não me comprometam com o para sempre
não uso o nunca
entendam, é o talvez que me agrada
a idéia que muda é que me anima
deixem-me achar e desachar
é assim que ventilo meu olhar
não me dêem direção
deixem-me em paz
.

Segunda-feira, Setembro 21, 2009

.
preciso descansar do dia antes de dormir. por isso não durmo cedo. deixo que tudo fique quieto. para que eu fique lenta. rituais se estabelecem. corro a mão em seu peito. sossego o seu cansaço no meio do meu descanso. entre uma página e outra. assisto seu agarrar no sono. meu sono tem mania. meu sono é último da casa.
.

Sexta-feira, Setembro 04, 2009

...
o avesso é só o lado de dentro quando posto pra fora
ou é o revirado de fora quando entra pra dentro?

...

Terça-feira, Setembro 01, 2009

na janela de antes, cimento
e olhar apressado..

na janela de agora, verde
e olhar demorado..
..

Segunda-feira, Junho 29, 2009

porvir

eis que estou com as coisas no ar
suspensas num tempo paralelo
estou rompendo dias
num descompasso que tento marcar
pelo passo das idéias que me aceleram
e a urgência de silêncio que me berra
desconforto de quem foge perseguido
quem acampa sem escolha
e a noite insone, claro, desmonta meu dia
olho pro sol com a desconfiança dos reféns
e trago o respiro do exercício que desconheço
ensaio, ensaio
procuro, desprezo
invento um ritmo pra hoje
amanhã preciso de outro tom
um desconcerto que me cabe bem
e fico bege
e fico dor

a fé que por vezes tenho é a mesma imensa que me falta
um desequilíbrio que apazigua o caos
e mantém, por ora, um resto de sanidade

Domingo, Junho 14, 2009

para reabrir esta casa..
para fechar um tempo..
para saber de línguas, estrangeiros e solidões..

de Pablo Neruda, em ‘cofesso que vivi’


Outra história que recordo com grande emoção é a do poeta andarilho Pedro Garfias, que foi parar no desterro no castelo de um lorde, na Escócia. No castelo estava sempre só e Garfias, andaluz inquieto, ia todo dia a taberna do condado e silenciosamente, pois não falava inglês mas apenas um espanhol gitano que eu mesmo não entendia, bebia melancolicamente sua cerveja. O mudo freguês chamou atenção do taberneiro. Certa noite, quando já todos os freqüentadores tinham ido embora, o taberneiro rogou que ele ficasse e continuaram bebendo em silêncio junto ao fogo da lareira, que crepitava e falava pelos dois.

Tornou-se um rito este convite. Cada noite Garfias era acolhido pelo taberneiro, solitário como ele, sem mulher e sem família. Pouco a pouco suas línguas se soltaram. Garfias contava-lhe toda a guerra da Espanha com interjeições, com juramentos, com imprecações muito andaluzas. O taberneiro escutava-o em silêncio religioso sem entender uma só palavra.

Por sua vez o escocês começou a contar suas desventuras, provavelmente a história de sua mulher que o abandonou, provavelmente a proeza dos filhos cujos retratos de uniforme militar adornavam a chaminé. Digo provavelmente porque, durante os longos meses que duraram estas estranhas conversas, Garfias tampouco entendeu uma palavra.

No entanto amizade dos dois homens solitários que falavam apaixonadamente cada um de seus assuntos e em seu idioma, inacessível para o outro, foi se acrescentando. E os encontros a cada noite e a conversa até o amanhecer converteram-se numa necessidade para ambos.

Quando Garfias teve que partir para o México despediram-se bebendo e falando, abraçando-se e chorando. A emoção que os unia tão profundamente era a separação de suas solidões.

– Pedro – disse muitas vezes ao poeta – que achas que te contava?
– Nunca entendi uma só palavra, Pablo, mas quando eu o escutava tive sempre a sensação, a certeza de compreendê-lo. E quando eu falava estava certo de que ele me compreendia.

Quarta-feira, Abril 08, 2009

a todo palhaço poeta
.
mágica,
ali dependurada,
um abracadabra
.
pirata, sim.
um buscador.
.
pirlimpimpim,
e vira fantasia.
.
pinta o olho,
dura um dia.
.
pinta a boca,
dura um beijo
.
vai a tarde
volta poesia
mania.
.
vai no verso
volta rouco
sussurro
.
e no desvão
um descuido
vira canção

Sexta-feira, Abril 03, 2009

Como as pessoas repetem as coisas!

Eu, claro, devo cometer disso que é tão humano, sair falando, sair repetindo um lugar comum qualquer, sair sabendo e querendo ensinar ou, talvez, ‘ajudar’. Mas é tão irritante!

Ando sem paciência para muitas coisas, mas especialmente para esta frase que, semana passada, ouvi pela milésima vez: a pessoa é que faz o lugar! Já ouviram isso? É uma máxima da auto-ajuda, imagino. Ou ao menos é a máxima da tentativa cretina de ajudar estrangeiros ou, apenas, o outro, aquele imbecil que não consegue se adaptar a um lugar, seja qual for.

Claro, o ponto de vista do outro é sempre assim, digamos, o ponto de vista equivocado do outro. Agora, o ponto de vista dos outros em coro é que é lenha! E eu que nem desprezava tanto assim a unanimidade.

Lugares têm costumes. Lugares têm clima. Lugares têm energia própria. Gastronomia, paisagem, organização, cheiro, gosto. Lugares têm seus conceitos e, sim, lugares têm preconceitos. Lugares têm tendências. Lugares têm população, seu povo, sua linguagem. Lugares têm configuração. Lugares têm história, marcas, sinais. Lugares têm cara, identidade, idade e tamanho. Lugares são o que são.

E eu, cá do meu ponto de vista equivocado ou não, quero contar sempre com a possibilidade de me abismar, de me chocar, de me encantar e de gostar e desgostar de algo, porque, só assim, manterei a indispensável capacidade de me apaixonar. Não quero me apaixonar por tudo e nem mesmo gostar de tudo. Pessoas são diferentes. Lugares são diferentes. Quero ser respeitada nos meus desejos, preferências e jeito de viver e olhar o mundo. Pôrra!
...

Terça-feira, Março 31, 2009

Do exílio

Ainda me sinto exilada, vinte e quatro meses depois de iniciar este blog. Exatos vinte quatro meses. Trinta meses depois de chegar aqui. Mesmo tempo de meu contrato de aluguel. Não que fique contanto os meses, fiz esta conta agora para a escrita. São outras contas que me fazem pensar, outros fatos, e as constatações.

Deste tempo que estou aqui passei boa parte alimentando a idéia de montar uma sala de cinema. A idéia virou projeto. Quis oferecer a cidade uma das coisas que mais sinto falta aqui, uma sala de cinema. Não apenas uma sala de cinema, mas uma sala de cinema fora de shopping, uma sala de cinema criteriosa com sua programação, que priorizasse filmes do circuito alternativo, exibisse produções dos mais diversos países, filmes independentes, produções nacionais, promovesse panoramas, mostras, festivais, enfim, uma sala alternativa à única rede que existe aqui, a Cinemark.

São quatorze salas Cinemark, nove no Shopping Jardins e cinco no Shopping Riomar, algumas simplesmente péssimas. Eu, particularmente, odeio o Cinemark. Aquelas arandelas brilhando durante todo o filme me dão a sensação de que as luzes não se apagaram por completo, e de fato, por completo, não se apagaram. Mas vá lá, passo por isso. A questão maior sempre foi a programação. Há o que chamam Cine Cult, que, verdade, exibe bons filmes, mas acontece que os horários são horríveis, não raro bem no meio da tarde, num único dia, quarta-feira, ou duas sessões no máximo e na pior sala do complexo e sempre em horários esquisitos. Mesmo com essa tentativa tímida, fato é que uma fatia importante da produção cinematográfica mundial não chega por aqui mesmo, nem com banda de música.

E ainda tem o detalhe, pra mim relevante, que é o de só se ter cinema dentro de shoppings. Quem não gosta de shopping center, gosta menos ainda fim de semana, não é mesmo? Nesses dias os daqui, como imagino em todo canto, se tornam insuportavelmente cheios. Portanto, há sempre de se passar por muitos desagradáveis para se ver um filme e confesso que, mesmo gostando tanto de assistir a filmes no cinema, me dá uma preguiça terrível.

Por essas tantas razões pensei que seria uma boa abrir uma sala de cinema em outros moldes. Moro numa capital com mais de quinhentos mil habitantes, certamente essa carência não é só minha. E com essa certeza fui a campo. Escrevi um projeto e saí à caça de parceiros. Depois de algumas consultorias com gente do ramo, minha idéia inicial evoluiu para uma sala digital. Precisava apenas achar o espaço. E passei mais de um ano à procura. Talvez por minha total e máxima incompetência, não achei. O que vejo agora, foi bom. Procurei pessoas ligadas à cultura, cinema, os críticos daqui. Fui recebida sempre com educação, mas com palavras de total desestímulo. Nunca uma palavra que me encorajasse. Para fazer justiça apenas uma dessas pessoas foi receptiva, aliás, a que me forneceu a maior parte dos contatos que fiz, encontrei-a uma única vez, mas foi ela que mais se mostrou disposta a me ajudar e de fato fez o que podia.

Neste tempo observei muito a gente daqui, conversei com uns, procurei conhecer outros, fui tentando entender mais as relações, os movimentos, como a área cultural se configura, como as pessoas reagem a ela, e aos poucos o cenário foi se desenhando pra mim. Com isso fui desanimando, murchando e, por fim, o desejo esmoreceu. Não quero mais abrir uma sala de cinema aqui. Estou certa que jogaria dinheiro fora. O desejo da sala esmoreceu e também outras coisas esmoreceram. Sei lá. Talvez cada cidade tenha o cinema que merece, ou que deseja, fico aqui pensando.

Ah! E há ainda, pra não ser injusta, a Virada Cinematográfica que acontece vez ou outra, não sei a periodicidade, promovida pelo mesmo Cine Cult que mencionei acima, uma iniciativa bem bacana, que rola nas grandes capitais e exibe ótimos filmes, mas aqui é lá no Cinemark.

Sexta-feira, Março 20, 2009

..
eu cato miudezas nos outros . a cicatriz num canto da perna . os fios brancos se anunciando na barba mal feita . um vício de linguagem . o modo de afastar o cabelo . de enxugar o suor . de movimentar as mãos enquanto fala . de pousar as mão quando cansa . o minúsculo instante rouba minha atenção . a forma de mudar a direção do olhar . o jeito de não olhar . de olhar quando não vê . de tirar o óculos . de fechar o olhos . eu persigo minúcias . a feição antes do sorriso . o andar quando sem jeito . o jeito de calçar o sapato . de tirar a camisa . de beber o café . eu me ocupo é de achar o único do outro .
..

Segunda-feira, Março 16, 2009

..
escrever nem uma coisa
nem outra
a fim de dizer todas
ou, pelo menos, nenhumas.
assim,
ao poeta faz bem
desexplicar
tanto quanto escurecer acende os vaga-lumes.
..
Manoel de Barros
..

Sexta-feira, Março 06, 2009

Pausa na poesia:
De onde saem seres como dom José Cardoso Sobrinho, arcebispo de Olinda e Recife?

Aconteceu assim: uma menina de nove anos, grávida de gêmeos depois de estuprada pelo padrasto, sofre um aborto induzido. Aborto amparado por lei duplamente: 1.caso de estupro, 2. risco de vida. E então o dom José Cardoso Sobrinho, arcebispo de Olinda e Recife, não tendo coisa mais importante a fazer e em nome das leis de seu Deus, segundo ele, excomungou mãe, médicos e todos os envolvidos no aborto. Só não excomungou o padrasto da vítima!

Não que seja alguma coisa importante, a se lastimar, ser excomungado de uma igreja que se presta a um desserviço desses! Mas é que dá uma náusea ter que conviver com essas barbáries legitimadas por supostas autoridades religiosas, ainda hoje!

Livrai-nos de todo mal!!!

Sexta-feira, Fevereiro 27, 2009


voltei à casa

na quarta de cinzas. tudo misturado. casa bagunçada. pó. em mim, matizes desses dias. ainda. resto de maquiagem. olho borrado de ver e esfregar na retina. pele queimada, face rubra. batom desbotado. vestígios da festa que me fiz. gentileza com os desejos, eu tenho. os conhecidos. os recém chegados. cuido em volta. me distraio atenta. ora pra ver, ora pra sentir. é assim que passo por lugares. reparadeira . uma coisinha ali, outra aqui. o que não sei me cercando. invento o jeito de caminhar na hora de caminhar. fiz até bolha no pé. de novo. sempre acontece. é que também andei que só. um mês todo. um fevereiro inteiro. até na chuva. na areia. e tanto paralelepípedo. ladeiras. algumas exposições. ruas bem antigas. cinema de bairro. jardins por acaso. sorrisos pontuando olhares. conversas ignorando relógios. a companhia da lua cumprindo sua sina de ser linda quando cheia. calçadas de Burle Marx. de vez em quando metrô. pensei ter engordado, emagreci. pensei ter cansado, senti saudades. gastei um monte de vontade. ouvi bobagens. cantei o que sabia de cor. fiz pausa pra não desafinar. e catei todo vento que deu sopa. só pra depois dançar, dançar e me encharcar de suor. me fiz de bailarina. andei perto de palcos. me vesti de palhaça. agora quieto o corpo. faço silêncio. e decido que amanhã, só amanhã, vou guardar o que for de guardar.




Sábado, Janeiro 31, 2009

Rascunho pra não esquecer
...
Ele procurava
Ela fugia
Ele a achou
Ela deixou
Ele inteiro
Ela ao meio
.
Ele corpo
Ela retórica
Ele tema
Ela cinema
Ele no ato
Ela de fato
Ele no violão
Ela na contramão
.
Ela de salto alto
Ele descalço
Ele ciúmes
Ela perfume
Ela dançava
Ele a levava
.
Ele de dia
Ela poesia
Ele por nada
Ela de madrugada
Ele costume
Ela queixume
.
Ela saía
Ele ficava
Ela demorava
Ele dormia
Ela escrevia
Ele temia
.
Ele agüentava
Ela enlouquecia
Ele sumia
Ela chorava
Ele aparecia
Ela vacilava
.
Ele calava
Ela sofria
Ele bebia
Ela rezava
.
Ele viajou
Ela tentou outro amor
Ele andou demais
Ela foi atrás
Ele no meio da rua
Ela no meio do nada
Ele sem ela
Ela por ele
.
Ele tremeu
Ela notou
Ele correu
Ela não deixou
Ele entendeu
Ela mostrou
Ele chorou
Ela o beijou

Quarta-feira, Janeiro 14, 2009

As cores de Laranjeiras...
.
.
refletem...
.
.
sobressaem...
.
.
entoam...
.
.
giram...
.
misturam...

.
aguardam...
.
rezam...
.
se espalham...

Terça-feira, Janeiro 13, 2009

o gesto quando encabulado é mais belo
parece gentil mesmo se incorreto
parece que se menos quer ser visto
mais evidente revela
se não pode, quer
se quer, mente
e assim valsa tenso-suave
no ritmo comum dos desejos

Terça-feira, Janeiro 06, 2009

em 2009

pode ser que eu fique quieta
pode ser que eu não acompanhe o cortejo do Bonfim
pode ser que eu fique triste
pode ser que não
pode ser que meus prazeres mudem de rumo
pode ser que continuem iguais
pode ser que haja prazer em reinventá-los
pode ser
pode ser que eu aprenda a simplificar
pode ser que eu pise mais na areia da praia
pode ser que eu mergulhe no mar toda semana
pode ser que eu tome banho de rio
pode ser que eu sinta mais calor
mas me arrepie mais
pode ser que eu perca o fôlego com um beijo rápido
e não perca com um beijo longo
pode ser
pode ser que eu ganhe flores
pode ser que eu plante flores
pode ser que eu esqueça disso
pode ser que eu vá saudar Iemanjá no dia 2 de fevereiro
eu quero
pode ser que eu veja o pôr do sol no Porto
pode ser que eu veja o pôr do sol do Guaíba
e caminhe durante muito tempo ali por perto do Gasômetro
pode ser que eu caminhe mais
pode ser
pode ser que eu contemple mais
pode ser que eu escreva mais
pode ser que eu me isole mais
pode ser que não
pode ser que eu aprenda a usar celular
e que eu compre um chip
pode ser que eu não queira fazer isso
pode ser que mesmo assim eu faça
pode ser que eu me esforce pra ser mais sociável
pode ser que eu tome mais chimarrão
pode ser que eu fique mais tolerante
mas pode ser que eu desista de ir ao cinema
pode ser mesmo
pode ser que eu consiga assistir a Juventude, de Domingos Oliveira
pode ser que eu queira silêncio
pode ser que eu queira o som do mato
pode ser que eu queira viajar só
pode ser que eu viaje
pode ser que eu reencontre alguém com quem queira conversar por horas
pode ser que eu morra de saudade
pode ser que eu finja de não
e que eu desencante minha saudade escrita, finalmente
pode ser
pode ser que eu não faça isso
pode ser que eu corte o cabelo
que eu mude a cor
pode ser que eu pare a terapia
pode ser que eu decore uma poesia de Florbela Espanca
pode ser que eu aprenda tamborim
ou me torne palhaça
malabarista
pode ser que eu vá ao Rio
e a Porto Alegre, de novo
a São Paulo, que faz tanto tempo
pode ser que eu canse de fazer mala
pode ser
pode ser que eu viaje sem bagagem
pode ser que eu faça a foto mais linda de todas
pode ser que eu componha uma música ruim
pode ser que eu compre Os 300 Melhores Discos, de Charles Gavin
pode ser que eu ache os vinis que quero tanto
pode ser que ouça música ainda mais
pode ser que eu leia ainda mais
pode ser que não
pode ser que eu troque a armação do óculos
pode ser que meu grau aumente
pode ser que enjoe óculos escuro
quem sabe, pode ser
pode ser que eu fique afiada no espanhol
pode ser que eu tire férias da minha língua
pode ser que eu deite embaixo de uma árvore pra ler Shakespeare
pode ser que eu leia Adélia Prado na Chapada
pode ser que eu só leia o jornal no ano que vem
pode ser que eu mude de idéia
pode ser que não
pode ser
pode ser que tudo possa ser
pode ser que não
pode ser

Terça-feira, Dezembro 23, 2008

não me interessa o de sempre
o previsível me espanta
não me venha com replay
não serei seu bis
tenho horror a deja vu

eu temo os clássicos

Quinta-feira, Dezembro 18, 2008

teu olhar me toca
meus dedos te guiam
tua boca me lê

minha pele te escuta
teu olfato me degusta

todo sentido nos cabe
tudo nos cabe de sentido

Quarta-feira, Dezembro 10, 2008

desatino

desatino é fotografia tirada sem máquina
é olhar escondido por trás da lente escura
é o roçar do braço no movimento que se inventa
é o olhar, que pra não contar, evita coincidir
é o sorriso que coincide, porque aí não dá de evitar
é o desejo fingindo que não é
é o toque constrangido, embaraçado na rapidez de deixar de ser
é a urgência do cheiro, do hálito, que não será atendida
é a imagem do beijo que antecipa a possibilidade
é a respiração que descompassa no repouso
é o deslize, o ato-falho, o descuido louco por mostrar
é o esforço de ouvir com os olhos
é fumar quando não se fuma
é pensar quando não se quer
é se proibir antes de sucumbir
é falar, falar, e não poder dizer
é esperar o que já se condenou
desatino é escrever isso pra explicar o que não se sabe

Terça-feira, Dezembro 09, 2008

estive solta
em meio a poesia dos outros
como anestesiada
embevecida
e fingi que não vi

um olhar...
mas depois sorri
mais porque achei graça
e encabulei
mais porque gostei

é o que me parece inusitado
(mesmo que nem seja)
que me faz sorrir
porque crio e creio no inusitado
e quando não o nego

ele me espanta
se deixo, me arrebata
sinto uma estranheza familiar
que insiste
como quem volta lá de longe
como quem cessa uma corrida
e descansa
e repousa
e observa

Terça-feira, Novembro 25, 2008

e é véspera de algo importante?
data?
viagem?
estréia?
grenal decisivo?
um projeto por iniciar?
uma tese pra defender?
uma loucura por cometer?
é alguém que volta de longe?
acaso uma paixão descabida?
ou o cabimento do mesmo amor?

desafio do corpo
não há questão
não há resposta
para o que treme
o que dói
assombra
absurda todo o entendimento
aborrece qualquer explicação
o torpe desconhecido
o desvalido
é

bem vindo
súbito de meus dias

Terça-feira, Novembro 18, 2008

para quem me ensinou a ficar




Consta nos astros
Nos signos
Nos búzios
Eu li num anúncio
Eu vi no espelho
Tá lá no evangelho
Garantem os orixás
Serás o meu amor
Serás a minha paz
.
Consta nos autos
Nas bulas
Nos dogmas
Eu fiz uma tese
Eu li num tratado
Está computado
Nos dados oficiais
Serás o meu amor
Serás a minha paz
.
Mas se a ciência provar o contrário 
E se o calendário nos contrariar 
Mas se o destino insistir
Em nos separar
Danem-se
Os astros
Os autos
Os signos
Os dogmas
Os búzios
As bulas
Anúncios
Tratados
Ciganas
Projetos
Profetas
Sinopses
Espelhos
Conselhos


Se dane o evangelho
E todos os orixás
Serás o meu amor
Serás, amor, a minha paz
.
Consta na pauta
No Karma
Na carne
Passou na novela
Está no seguro
Pixaram no muro
Mandei fazer um cartaz
Serás o meu amor
Serás a minha paz
.
Consta nos mapas
Nos lábios
Nos lápis


Consta nos Ovnis, no Pravda...
...

Dueto de Chico Buarque

Quinta-feira, Novembro 13, 2008

O amor inextinguível

Valparaíso é secreto, sinuoso, enovelado. A pobreza se derrama nos morros como uma cascata. Sabe-se quanto come e como veste (e também quanto não come e como não veste) a gente inumerável dos morros. A roupa secando embandeira cada casa e a proliferação incessante de pés descalços, que formam uma colméia no barro, denuncia o amor inextinguível.
Confesso que Vivi - Pablo Neruda

Quarta-feira, Novembro 05, 2008

Para João




João das pernas roxas
do pé encardido
das chuteiras sempre pequenas
do pé na bola
João dribleiro
João ligeiro
que reclama, que faz drama
João das cenas
João dos cinemas
das músicas que não sei
do reggae de Bob Marley
João do violão
que ensaia, que experimenta
João corajoso
que tem medo e tudo mais
João que corre atrás
voa, parte, insiste
João que às vezes é triste
ás vezes é graça
outras, pirraça
João das gargalhadas
João das palhaçadas
João baiano, bairrista
João artista
João que é sempre lindo
João camaleão
cabelos compridos
cabeça raspada
moicano
João cigano
João das viagens
das distâncias, das andanças
que embarca, que desbrava, que questiona
João de opinião
crítico, ácido
cheio de razão
que diz, que fala, que pensa
João discreto, João quieto
que é tímido
que é solto
João arteiro
que mesmo não sendo igual
é João o tempo inteiro
João que está fora
e fez anos
e teste no Internacional
João que cresce como é natural
que hoje mudou de idade
João, que saudades!
que hoje almoçou no Gambrinus
João meu menino
João tão amado,
meu mais lindo colorado,
esse escrito é o meu abraço.



Quarta-feira, Outubro 29, 2008

abandono não foi feito para o amor
nem o esquecimento
.
todo o amor é irremediável
tatua
.
ao tornar-se
acrescenta
ao acrescentar
configura
.
todo amor postula um abalo qualquer
.
por isso tem nome e sobrenome
e conta mesmo sem querer contar
grava seu texto
assina sua obra
.
amores têm digital
.
o amor que tive, está
o amor que está, é
meus amores não passam
quando arrefecem
se acomodam e ficam
fazem casa no meu corpo
eu deixo
.
que amor não se abandona



Sexta-feira, Outubro 24, 2008

..
os textos daqui
chamam textos de lá
os de lá chamam os daqui
os textos de lá não são os daqui
mas ecoam os daqui, lá
os de lá, aqui
e os daqui e os de lá
pra lá do lá

no fim se embolam os textos
palavras rolam pra cá e pra lá
caem no vento
surpreendem ouvidos
roçam bocas
desafiam línguas
confundem entendimentos
explicam confusões

e como tudo pode a palavra dita
e tudo teme a palavra solta
melhor deixar a não dita presa na própria escrita

..

Domingo, Outubro 19, 2008

'O imprevisto é a prova mais linda da ordem natural das coisas. E eu vou aprendendo a acionar meus imãs no instante em que as coincidências se armam. Faíscas aos olhos.'

Arnaldo Antunes em 40 Escritos

Quinta-feira, Outubro 16, 2008

Corridinho

O amor quer abraçar e não pode.
A multidão em volta,

com seus olhos cediços,
põe caco de vidro no muro
para o amor desistir.
O amor usa o correio,
o correio trapaceia,
a carta não chega,
o amor fica sem saber se é ou não é.
O amor pega o cavalo,
desembarca do trem,
chega na porta cansado
de tanto caminhar a pé.
Fala a palavra açucena,
pede água, bebe café,
dorme na sua presença,
chupa bala de hortelã.
Tudo manha, truque, engenho:
é descuidar, o amor te pega,
te come, te molha todo.
Mas água o amor não é.

Adélia Prado

Quinta-feira, Outubro 09, 2008

fale mais baixo
um pouco de silêncio, por favor
é que tem um barulho em mim..

piss!
escute..
ouviu?
não pode ouvir meu barulho?

meu barulho
mudo, é ensurdecedor
estridente, é inaudível
pois
vou dançar meu barulho
vou escrever meu barulho
vou tocar meu barulho
vou verter meu barulho, transbordá-lo
vou rir meu barulho
vou fazer de meu barulho, imagens

quer ver?
agora já pode gritar.

Terça-feira, Outubro 07, 2008

'Na parede de um botequim de Madri, um cartaz avisa: Proibido cantar. Na parede do aeroporto do Rio de Janeiro, um aviso informa: É proibido brincar com carrinhos porta-bagagem. Ou seja: ainda existe gente que canta, ainda existe gente que brinca.'
Eduardo Galeano

Quarta-feira, Outubro 01, 2008

perder e achar palavras...

com a língua na ponta dos dedos.
preciso de você pra não perder o juízo
preciso de você quando a vida amarga
te quero do meu lado quando menos espero
espero por você porque a cama é larga
preciso de você quando estou sozinha
quando a noite chega e quando você demora
pra conversar comigo quando perco o sono
você é meu abrigo quando chove muito lá fora
(...)

Celso Fonseca

Domingo, Setembro 28, 2008

lê ao meu lado
esse cara é maluco!, pensa alto
sorrio
sei o que pensou
sorri
sabe o que pensei?

os travesseiros estão trocados
nossas pernas embaraçadas
meu cabelo se embola em seu braço
sua mão pesa no colchão
minhas costas, leves
seu pé mais quente que o meu
minha leitura mais densa
esse cara é doido!, digo
e sorrimos
sabe o que pensei

alcança o marcador, me diz
eu alcanço
..
'lembra o tempo
que você sentia
e sentir
era a forma mais sábia
de saber
e você nem sabia'
..
Alice Ruiz

Sábado, Setembro 27, 2008

historinha sem começo, pé ou fim

de tão sutil, passou
de tão rápido, tropeçou

de tão bobo, desencantou
...
que pena!

.

Sexta-feira, Setembro 26, 2008

‘Lutei toda a minha vida contra a tendência ao devaneio, sempre sem jamais deixar que ele me levasse até as últimas águas. Mas o esforço de nadar contra a doce corrente tira parte da minha força vital. E se lutando contra o devaneio, ganho um domínio de ação, perco interiormente uma coisa muito suave de se ser e que nada substitui. Mas um dia ainda hei de ir, sem me importar para o onde o ir me levará’

Em A Descoberta do Mundo, de Clarice Lispector.

Sexta-feira, Setembro 19, 2008

quando me encontro em confusão
tudo pode ser
e nada também.

certezas ruem
tudo voa
e nada ao alcance da mão.

se aparecesse
se ficasse claro
e fosse verdade

eu, que não sou tranqüila
que não sou segura
que não sou madura,
poderia ser corajosa!

porque sou da palavra
do insano
do devaneio
do desatino,
mas preciso de chão.

um pouco de chão.

Terça-feira, Setembro 16, 2008

uma semana é muito tempo
uma semana pode até ser mais que dois anos
porque o tempo é galhofeiro
o tempo é um libertino
não respeita relógio
o tempo não respeita é nada

Segunda-feira, Setembro 15, 2008

sorriso riscando o rosto pra chegar. bagagem. música na bagagem. um tapete verde de cúmplice. e um receio de não saber estar.

a alegria desconfiada. alguns desejos. muitas saudades. uma dúvida. uma língua mais solta que a da nega do leite. muito assunto atrasado. e tantos outros a adiantar.

noites espichadas com apuro. todo sono abreviado. o tempo a zombar. imprevistos fazendo graça. um belo encontro anunciado. e outros muitos forjados.

uma Maria recém nascida. um presente em verso. quatro livros a mais. um vestido todo branco. uma poesia escolhida com dedo e gosto. e muita, muita poesia vasculhada.

dizedores de versos. contadores de histórias. um quase escritor. músicos falando de fórmula I. atrizes por professoras. um capricorniano infiltrado. e uma ausência no juízo.

um pequeno encanto. um susto bom. olhares sem palavras. avalanches de verbos. cafés e cigarros. um rio vermelho sempre boêmio. uma hospedagem carinhosa. e os dias escorrendo por entre os dedos.

pena é que tudo não caiba na algibeira...

Segunda-feira, Setembro 08, 2008

CALMA: quando as agonias dormem profundamente dentro da gente.

do Pequeno dicionário de palavras ao vento de Adriana Falcão

Terça-feira, Setembro 02, 2008

é aquela alegria boba que dá
chega sem dizer
toma fôlego em bestagem
sem corpo
entra pelos cabelos
desce no pescoço
toma a pele
acampa no peito
se enroscando, essa alegria, pela gente inteira
.
vontade de comer doce
de ficar acordada
de rodar pela saia
de vestir nudez
feito índio
e de cantar esse canto calado

aboletado no juízo
.
toda a rigidez cede
músculos se jogam na soltura do vento que nem bate
se sente
que tudo brisa nesse estado
tudo sugere, tudo convida, e ri, e faz
até que se esgote
cada gota
a derradeira
porque tristeza tem história comprida
sabe dos atalhos
.

a tristeza caça a gente