Sexta-feira, Março 19, 2010

O funcionalismo público e eu – parte l

Fico muito impressionada quando as pessoas me dizem que agora com o SAC – Serviço de Atendimento ao Consumidor, tirar documentos ficou mais fácil, você resolve tudo rapidinho. Comigo não. Nunca é rapidinho. Sempre falta algo ou tem rasura ou simplesmente está errado. Eu nunca entendo bem a razão da complicação, mas ela esta sempre lá e não fui eu que criei.

Meu filho precisa tirar passaporte, como é menor de idade não pode tirar sozinho, precisa de mim e do pai, correto. Para isso nos exigem o RG e só serve o RG. Simples, parece, mas não é. O RG tem que estar em perfeito estado. Bobagem, parece, mas não é. Perfeito estado é uma coisa muito complicada, subjetiva demais, descobri, depende muito do olho de quem vê. A minha carteira de identidade, por exemplo, estava em péssimo estado: não serve, precisa fazer outra, me disseram. Lá vou eu com minha certidão de casamento tirar rapidinho (ai ai) um novo RG, beleza. Uma ova! (e aqui eu faço um parêntese: esta certo que eu já vou pra estas coisa com medo e dizem que isso atrapalha, mas não pode ser apenas o meu pobre medo) A mulher pegou minha certidão de casamento, olhou e lançou:
- Não vai dar.
- Como assim? Por quê?
- Aqui ó, rasurada.
- Mas moça, isso lá é rasura? É porque a senhora nunca trabalhou em escola. Mas já estudou, né? Isso não merece nome de rasura, uma besterinha dessa?
- Não pode. Tem que tirar outra.

Esse ‘tem que tirar outra’ é dito num sem cerimônia, assim como se fosse nada, te olhando no olho, firme, na convicção. Sei lá, tivesse eu do lado de quem diz, ficaria no mínimo constrangida sem saber como dizer, pra onde olhar, onde colocar as mãos. Porque é lógico que todos eles sabem a prova a que nos submetem cada vez que nos condenam a tirar ou renovar um documento.

Ainda pensei se meu passaporte não serviria para provar que sou mãe de meu filho, já que o documento é novo, tem menos de um ano e foi emitido pelo mesmo órgão e coisa e tal. Não senhora, não serve, só o RG -
me disseram com prazer, eu acho, só pode ser prazer, porque lógica não há.


O funcionalismo público e eu – parte ll

Esta semana precisei ir ao Cartório de Registro Civil da Vitória que fica na rua Almirante Marques de Leão, na Barra, e me deparei com algo que deveria ser considerado inverossímil, mas sei que não será. Na frente do prédio uma fila já se enroscava de grande que estava, eram 11h da manhã e o sol escaldava em Salvador. As senhas para atendimento só seriam distribuídas a partir das 11:45. Lá dentro do prédio climatizado estavam os funcionários nos olhando, suponho porque o vidro era fumê. Nós não podíamos entrar no prédio, só depois de posse da senha. Era preciso esperar no sol ou na chuva, fosse o caso. Na fila todos calados, cada um enxugando seu próprio suor, uns cobrindo-se com envelopes, outros com pastas, uns sentados num canteiro ao longo da fila e todos meio desolados, mas ninguém queixava-se. Apenas uma única moça demonstrou indignação. Bradava sozinha sem entender porque sua queixa não ganhava coro, mas mesmo assim tentava. Um funcionário saiu do prédio. Ela o interpelou: Senhor, por que não podemos ao menos esperar lá dentro? É desumano ficar debaixo desse sol a essa hora do dia! A sala lá está vazia! Sabe o que lhe respondeu o sujeito? A culpa é de vocês que estavam vendendo senha! – Eu mesma demorei de entender. Vendendo senha?! Mas claro! Vendendo senha, óbvio! Senhas neste contexto valem ouro! Por que será?

Por que será que cartórios funcionam assim tão mal? Prestam este péssimo serviço, geram comércio de senhas, desrespeitam, humilham, nos sujeitam a suas regras burras e ainda nos esfregam na cara um artigo sei lá qual, nos lembrando que desacato a autoridade é crime, apenas porque não querem ouvir críticas ou reclamação que seja. Quer dizer, você não pode chiar, não pode chamar o gerente, haja o que houver ninguém será demitido e quando acaba, se algo der errado, se algo for rasurado, a culpa ainda será sua, você que entrará na fila, que ficará ao sol e que pagará a taxa da 2ª via. Não é uma beleza?

7 comentários:

SUZANNE XAVIER disse...

Nanda, esse desabafo seu me lembrou "O pirotécnico Zacarias", um conto muito bacana do Murilo Rubião, leia! Bjo!

Cynthia Lopes disse...

Fernanda,

adorei o desabafo!!!
Creio que seja algo pelo qual todos nós passamos um dia. Explicar? Não, não há explicação possível, não há lógica, é só: BUROCRACIA.
Gente que se apega a manuais, mas jamais se coloca no lugar do outro.
bjs

Giselly Lima disse...

Oi fernanda... espero que tenha tido sucesso na sua batalha contra a burocracia.
E geana, hein? É GEANA... Muito tempo atrás, a encontrei na praia. tinha se separando e tava morando em stela, carol já uma moça. nunca mais a vi, mas vejo o ex-marido direto, parece q mora perto de mim; o vejo passando...
lembro desses tempos também. imagino futuros: como estarão? e tenho notícias do tempo, apenas.
Bjo.

Giselly Lima disse...

ah, creio que o conto a que suzi se refere é O Ex-mágico da taberna Minhota, não o Pirotécnico...

SUZANNE XAVIER disse...

Moça, eu troquei o conto! rsrs
Na verdade é "O ex mágico da Taberna Minhota". Muito bom!

Srta. M. disse...

Oh, Nanda, tenho uma dúzia de historinhas engraçadas de burrocracia pra te contar.

Tina disse...

Sabe o que é? Tudo isso é pra gente saber quem é que manda! Eles dizem como devemos nos identificar! Por isso, conheço um monte de gente em Salvador que não tem identidade faz um tempão! Aí, se te pegam numa situação, te dizem: "cadê a identidade" e aí já viu. É um "círculo" vicioso...
É desumana, a condição!